Oh, Istanbul!!

Não é fácil escrever sobre esta massa urbana multiforme onde vivem mais de 16 milhões de pessoas tão diferentes e tão iguais a nós próprios.

Observá-la e vivê-la pode ser ver deslizar pela janela húmida de um táxi, numa das muitas noites de chuva, o contínuo casario pobre e de construção improvisada, por dezenas e dezenas de quilómetros, até o coração se apertar na solidão de quem se sente à deriva no mar sem ponto de referência. Ou pode, num oposto, ser aquele momento de rara sintonia entre espaço e tempo, em que saber-se o fugaz protagonista de um pequeno papel neste cenário em que a história, mais que milenar, resiste em não terminar.

Vista da baía da ilha de Burgazada, nas Ilhas Príncipe.

Geografia, paisagem e orografia irmanam-se com as águas do mar num fascinante jogo de esconde e mostra, onde o Bósforo e o Corno de Ouro são a mais bela prova disso. O olhar não descansa se sentados num qualquer ponto das extensas margens a tocar a água. Ora são as enormes pontes que irrompem do casario apinhado a fundir-se no mar, ora uma recatada baía, protectora de pequenos barcos, envolta num arvoredo denso de floresta nórdica. Um cargueiro de cores garridas no casco, sulca as águas do canal e barra por momentos a vista da margem oposta, fazendo que os cacilheiros e as outras embarcações se vejam minguadas pelo seu corpo descomunal.

Vista da baía da ilha de Heybeliada, nas Ilhas Príncipe.

A beleza desta cidade é tão irresistível que tantos tentaram e tentam aprisioná-la na pintura, na fotografia, na música. Ou pode, sem dúvida, ser com palavras a melhor forma de deter em nós um pedaço do que este lugar magnífico contém na sua diversidade. No entanto, como arquitecto pouco dotado para a escrita, tem sido através de esquiços rápidos, a caneta preta, que me vou envolvendo melhor com esta espécie de cidade-amante que é Istambul.

Vista da pequena mesquita de Burgazada, nas Ilhas Príncipe.

Nos dias de hoje, a fotogenia das suas colinas e dos cursos de água, dos monumentos históricos e do skyline caótico, estão sempre na mira dessa fotografia rápida e de memória fugaz que o telemóvel disponibiliza. Eu, também o faço. Mas não deixo de pensar que essa é uma forma de nos escaparmos a pensamentos mais demorados que nos farão entender melhor onde estamos e com quem nos cruzamos.

Vista do Bósforo desde o lado europeu, na zona de Tarabya.

O desenho tem essa qualidade de nos fazer mergulhar na profundidade de campo, nas texturas, na natureza dos materiais, nos caprichos da forma. Através da vista, mas sobretudo da mão, o cérebro vai assimilando a natureza daquilo que os nossos olhos vêem. Se o momento for propício, a concentração no objecto desenhado, leva-nos a um estado relaxamento e de quase meditação. Uma espécie de simbiose com os vincos dos telhados ou com as pregas e dobras de uma fachada.

Em geral, tenho-me concentrado em desenhar edifícios do período Otomano porque é a melhor maneira de entender uma arquitetura diferente daquela de onde venho. Meto-me no metro ou apanho um táxi munido do meu guia de arquitectura otomana do Prof. Doğan Kuban (Ottoman’s Istanbul) com destino a um edifício escolhido e depois, em modo flâneur, perco-me na mole urbana em busca de outras jóias arquitectónicas.

Através desses passeios e desenhos, consegui perceber que a maior parte das obras religiosas do grande Mimar Sinan tomam referência na arquitetura do período bizantino mas que a sua imaginação e engenho lhe permitiram aligeirar estruturas e libertar de colunas o interior das mesquitas, dotando-as de uma leveza e luminosidade únicas; ou entender as contaminações dos estilos ocidentais na arquitectura palaciana e civil da familia Balyan.

Mesquita do complexo religioso de Yeni Valide em Üsküdar (bairro onde nasceu C. Gulbenkian), obra do séc. XVIII.

Para um arquitecto, a Istambul não faltam aspectos para se apaixonar. A forma complexa como se expande através de um território natural de beleza invulgar; a riqueza do seu património construído, estratificado em camadas que só faz pensar num processo geológico que permite ler uma importante parte da história da humanidade; e claro, a vibrante energia emanada pelos milhares de carros, pessoas, pássaros, gatos e outras criaturas que cirandam pelas ruas da imensa metrópole.

Nesse universo, o arquitecto deslumbra-se e encontra um recanto para tentar captar, num pequeno caderno, uma centelha do que dela se desprende.

Mesquita de Selimiye em Haydarpaşa, obra do séc. XIX.

(Recomendamos a leitura de The Sketch Virus, outro post relacionado com desenho e arquitectura).

3 thoughts on “Oh, Istanbul!!

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